segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Todos nós temos fantasmas e nem sempre eles esperam o Natal

Explicar minha relação com a doença obrigatoriamente passa pelo fato de que eu já quis ser cirurgiã oncológica. Racionalmente isso justificaria muito da minha aparente calma durante a investigação e o diagnóstico, mas a calma era apenas superficial.
Ir ao oncologista e ter câncer não era o mais assustador pra mim. Quando estudante tive a experiência de acompanhar o cuidado a diversos pacientes oncológicos e me afeiçoar a alguns deles. Três desses pacientes explicam muito do que foi para mim o início do processo.
Uma das minhas melhores experiências enquanto estudante foi acompanhar uma senhora com câncer de mama, sem possibilidade de cura. Dos momentos onde ela desejava a morte devido a dor aos momentos onde ela escolhia como viver seu último Reveillon. Digamos que esse é meu fantasma dos Natais passados. Quase todo mundo que trabalha comigo já me ouviu contar a história da paciente cujo nome eu esqueci, mas que marcou profundamente a minha vida e me apresentou o cinema clássico. É ela que me lembra que há beleza mesmo nos momentos tristes, nunca vou me esquecer daquela senhorinha frágil vestida como sua estrela de cinema preferida.
Meu fantasma do Natal presente era mais assustador. Faz parte das recordações tristes da época da faculdade. É no momento do diagnóstico era com ele o elo mais forte. Ele tinha 15 anos e eu 19. Ele tinha uma massa no lado direito do pescoço. Ele tinha um linfoma de Burkitt. Ele segurou minha mão durante a biópsia da massa e apertou-a com força durante a biópsia da medula. Ele ficou completamente careca durante o tratamento e eu o fazia prometer que ia virar lutador quando melhorasse, a gente ria muito quando eu ia examiná-lo no isolamento. Até ele receber alta no fim da quimioterapia e voltar um dia com uma paralisia facial. A doença tinha voltado e invadido o sistema nervoso central. Apesar de tudo que se tentou, a doença venceu no final. Ler na biópsia que havia a possibilidade de ser Burkitt também, só me fazia lembrar disso. Quando conversei a primeira vez com a hematologista essa era a única lembrança que eu tinha em mente. Não sei de verdade o que me fez contar essa história para ela, mas sei que foi como ela conseguiu ouvir que definiu que eu acompanharia com ela. Sabendo do que me assombrava no diagnóstico, ela conseguiu ir desconstruindo meu medo pouco a pouco.
Meu fantasma de Natais futuros era uma moça jovem, uns 36 anos, mãe de dois filhos, com um câncer de estômago muito agressivo. Lembro das nossas conversas antes da cirurgia sempre preocupada com o futuro dos filhos. A morte dela por complicações no pós-operatório foi algo que me perturbou muito na época. A dúvida se deveria ter deixado ela ir embora sem tratar ou convencido a operar me torturou vários meses, tempo o suficiente para eu desistir de ser cirurgiã, tempo o suficiente para por alguns meses eu questionar se deveria ter sido médica. Sempre que pensava sobre o futuro me vinha o medo de assim como ela não poder criar meu filho.
Resumindo, eu entrei no tratamento com muito medo. Medo da doença não curar, medo dela sumir e voltar, medo de ter infecção. A perspectiva de lidar com um linfoma de Burkitt era completamente paralisante e eu tinha medo de não chegar até o final do tratamento.

Um comentário:

  1. Quantas experiências de vida, Carolina. Faça bom uso delas pois isso é um privilégio! Continue escrevendo.

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