domingo, 15 de janeiro de 2017

Como Alice no buraco do Coelho



Existem bilhões de pessoas e existem vários tipos de câncer. Esse é o relato da minha experiência com um câncer. É pessoal e, provavelmente, é diferente da experiência de outra pessoa com outro tipo de câncer ou mesmo de outra pessoa com o mesmo tipo de câncer.
Em 2016, cerca de 5000 pessoas no Brasil tiveram o diagnóstico de um linfoma não Hodgkin (LNH). Eu fui uma delas. Especificamente eu fui diagnosticada com um linfoma não Hodgkin tipo B de grandes células, um tumor bastante agressivo e, por isso, bastante sensível a quimioterapia.
Eu sou médica. Isso às vezes é bom. E algumas vezes, não tão bom. O ano tinha começado com muito trabalho, pois eu tinha assumido um desafio profissional que era gerenciar uma das maiores emergências da minha cidade. Além disso, eu era aluna de mestrado. E também sou esposa, filha, mãe e irmã.
Nos sete primeiros meses do ano meu tempo parecia escorrer pelas mãos. Tínhamos acabado de realizar um curso sobre saúde mental e urgências, ainda colhíamos os frutos da capacitação nas nossas equipes. Já tínhamos nos lançado em um novo projeto, um curso de emergências clínicas, que também já começava a render alguns frutos. Eu tinha conseguido deixar meu projeto de pesquisa pronto para qualificação e para análise do comitê de ética. Eu já tinha outros projetos de treinamentos e de processos educativos engatilhados com outros parceiros.
Agosto foi o mês mais curto que um ano poderia ter. Para mim teve apenas doze dias. Porque no dia 12/08/2016, tudo começou a mudar e a sensação é de que daquele dia em diante o tempo contava diferente para mim.
Fui levar meu filho para assistir Suécia e China no futebol feminino, jogo tranquilo, bom para desestressar e levar crianças. Os momentos daquela noite são a lembrança mais forte que tenho desse ano, outras coisas se misturam na memória sem muita relação tempo/espaço. Depois de botar meu filho para dormir, percebi, no espelho, um caroço do lado direito do pescoço bem perto da mandíbula. Dormi pensando que poderia ser caxumba.
Menos de oito horas depois, eu estava pedindo opinião do infectologista. De cara ele já viu que era um linfonodo e, portanto, não era caxumba. Com pedido de sorologias e ecografia, começamos a investigar causas infecciosas. Mas eu tinha exames anteriores, afinal estava grávida três anos atrás. Resolvi checar esses exames e logo percebi que poucos exames novos poderiam dar uma resposta. Colhi sangue e fui para uma exposição de arte alemã aguardar a hora de fazer a ecografia. Na cabeça começavam a se delinear os raciocínios diagnósticos aos quais eu teriam de ser submetida. Eu tinha noção de que algumas doenças graves teriam que ser investigadas: AIDS, tuberculose, linfoma.
A ecografia mostrou os prós e contras de conhecer quem te examina. Se o exame começou descontraído pela conversa, terminou tenso com dificuldade de conversar. Na ecografia mostrava que os linfonodos em geral estavam pouco aumentados, com apenas dois maiores, só que esses pareciam estar perdendo o formato habitual. Não dava para afirmar que era câncer, mas também não dava para dizer que não era. O radiologista me ajudou a pensar quais de nossos amigos trabalhavam com câncer. Marquei consulta para o fim da tarde e liguei para o infectologista contando os exames da gravidez e a ecografia.
O oncologista me examinou. Além dos linfonodos, a amígdala também estava aumentada. Mesmo sem sinais de infecção optamos por tratar com antibiótico enquanto aguardava o resultados das sorologias e fazia uma tomografia para ver melhor os gânglios. Consegui fazer o exame no dia seguinte, bem cedo. Agora era passar o dia aguardando o laudo e também pegar os resultados dos exames de sangue. No meio da tarde, os resultados já descartavam AIDS e várias outras infecções. O infectologista optou por um exame mais específico para tuberculose. No fim da tarde a radiologista me liga, porque a chuva me impediria de buscar o laudo, e se oferece para mandar imagens e laudo virtualmente. Ela me pergunta sobre os exames de sangue e me diz que a imagem não parece de tuberculose.
Liguei para um dos R2 de cirurgia que fez cirurgia oncológica e em quem eu confio de olhos fechados. Eu precisava que ele olhasse as imagens, me ajudasse a ver o que estava acontecendo. Nos tempos de internato e residência muitas vezes vimos tomografias juntos, eu me inspirava em ser igual a ele, de certa forma acho que foi o que eu precisava naqueles momentos para entender o que viria pela frente. Mas do que uma consulta foi a hora onde minha cabeça alinhou que eu era médica mas estava me tornando paciente.
O exame para tuberculose, IGRA, vem negativo. O PET-Scan mostra linfonodos cervicais, amígdala e linfonodos mediastinais acometidos. A biópsia já é feita sabendo que as chances de não ser câncer são baixas.
Dez dias após a imagem no espelho, ouço do oncologista a confirmação de que é um linfoma agressivo, indeterminado entre grandes células e Burkitt. É preciso consultar com a hematologista. É preciso mandar amostra de tecido para Botucatu, para realizar mais testes...E, naquele momento, as falas ao redor me parecem distantes. Parece que flutuo como Alice ao cair no buraco do coelho...

5 comentários:

  1. Isso primeiro momento deve ser difícil. Pensa-se nas dificuldades e consequências do tratamento. Não sei se o fato de ser médica, emergencialista, pode ter ajudado a superar com mais tranquilidade.

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  2. Isso primeiro momento deve ser difícil. Pensa-se nas dificuldades e consequências do tratamento. Não sei se o fato de ser médica, emergencialista, pode ter ajudado a superar com mais tranquilidade.

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  3. E já sabendo do diagnóstico tocou o plantão.... me lembro perfeitamente!!
    Força é seu sobrenome !!
    Te admirando cada dia mais ... vai com tudo Carol !!

    Bjs, Jaque

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  4. O processo de descoberta que está ficando doente deve ser angustiante, ainda mais quando se tem que equilibrar diversas responsabilidades. Eu não tenho como saber como a sua vivência está sendo, por não estar na sua pele, mas consigo sentir no texto a emoção do processo. Dá pra perceber como essa escrita está sendo parte do seu processo de cura. Eu fico feliz por você ter descoberto uma via de escape e aguardando próximos textos, Carol. =)

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  5. É preciso muita coragem para fazer este relato! Escrever ajuda. Continue escrevendo, Carolina!

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